Desculpa para desligar
Martha Medeiros
Os britânicos já colocaram no mercado a Máquina de Desculpas para Sair do Telefone
Em abril de 2000 eu escrevi uma crônica lamentando uma invencionice de um pub inglês: o proprietário colocou a disposição dos clientes uma cabine telefônica capaz de reproduzir sons de escritório ou de congestionamentos, para que os frequentadores pudessem ligar pra patroa com uma desculpa sonora. “Estou preso no trânsito, vou me atrasar!” Coisa de criança, né? Não entendo qual é a tragédia em admitir: “Estou com uns amigos num pub, daqui a pouco estou aí”. A não ser que não esteja com amigos, mas aí está fazendo o que num pub??
Bem, agora leio que os britânicos incrementaram a invenção, tornando-a bem mais acessível. Já está no mercado o Get Off the Phone Excuse Machine, ou algo como Máquina de Desculpas para Sair do Telefone. É do tamanho de um chaveiro e reproduz diversos sons para quem quer desligar o telefone e precisa de uma desculpa convincente. Tem som de choro de bebê, campainha de porta, chiado para dizer que está entrando num túnel a até som de um acidente de carro, o que eu já acho um exagero: não carece matar do coração quem está no outro lado da linha.
Se eu também acho esta invenção infantil? Desta vez aplaudo, e viva a contradição. Não sou muito fã de telefone. Uso-o com comedimento: para dar um recado, cumprimentar alguém, combinar um encontro, fazer um convite, pedir uma informação, nada que dure mais do que três ou quatro minutos. Fazer visita por telefone, só no caso de haver um oceano entre as duas pessoas – e ainda assim já inventaram algo fabuloso chamado e-mail. Quem é que tem tempo de ficar contando em detalhes o sonho que teve com a primeira professora da escola, justo durante seu programa de tevê favorito?
Pois tem gente que tem tempo de sobra e estica a conversa além do limite do razoável. É para estes casos de desespero que foi inventado o Get Off the Phone Excuse Machine, “Desculpe, tenho que desligar, o bebê esta chorando, você está ouvindo?” (faz de conta que você está fazendo um bico como baby sitter). “Desculpe, acabei de comprar um rottweiler e ele está latindo aqui no meio da sala”. “Desculpe, acabo de bater num poste, você escutou o barulhão?” Perfeito. Muito mais educado do que dizer: “Desculpe, mas eu vou ter um treco se você continuar contando sobre a excursão da sua cozinheira às cataratas do Iguaçu”.
Nada me dá tanto prazer quanto bater longos papos. Conversar, conversar, conversar. De preferência, sentadinhos frente a frente.
Domingo, 21 de agosto de 2005.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.